Caixa de texto: MOVIMENTO OÁSIS

QUANDO AS VIDAS DEIXAM RASTO

Pedem-me para escrever um artigo para o centenário do nascimento do P. Rotondi. Não convivi muito com ele, mas na altura em que veio a Portugal no inicio dos anos 70 encontrava-me todos os dias com ele de um modo informal no refeitório ou nalgum corredor do Colégio Marista de Carcavelos, onde eu estudava na altura. Tive até a alegrai de o conduzir ao aeroporto, no seu regresso a Roma.

É difícil recordar tantas emoções que se viveram nessa semana de encontro em Portugal. De todos os modos, as recordações que eu gravo do Oásis são muitas. Correspondem grosso modo aos anos em que residia no Colégio Marista de Carcavelos e estudava ao mesmo tempo na Universidade em Lisboa. Uns três/quatro anos em que colaborei mais de perto neste movimento que também me modelou e ficou no coração.

Muitos desses meus sentimentos aparecem no meu livro, O Movimento do Oásis – Espiritualidade e Missão, Porto, 2011, 276 páginas. Não se trata de repeti-los aqui.

Mas que poderia dizer eu do P. Virgínio Rotondi, que louvava os meus dons de condução quando o levava ao aeroporto. “Conduzes sem medo e pareces seguro; mas temos tempo, não há razão para ir tão depressa”. E a conversa continuava até ao aeroporto, onde pude ainda tomar um café com ele antes de se perder para além das portas que o levariam ao avião que descolava para Roma. Demos um longo abraço e segredou-me: “Coragem, o movimento em Portugal tem que singrar. Dá-lhe o melhor de ti mesmo; outros virão; gostei do que vi em Carcavelos; devemos preparar os animadores do futuro”. É provável que tenha dito mais coisas, profundas e verdadeiras. Brotavam do coração, como um fogo que se quer multiplicar.

Desses breves encontros e viagens, vendo ainda a sua dinâmica figura passar entre nós, eu poderia sintetizar.

- O P. Rotondi era um homem de fé. Bebia-se nas suas palavras. quando ele falava. Esta dimensão do homem que vivia em Deus, para depois dar Deus aos homens. O Movimento Oásis foi um caminho (entre tantos) que ele encontrou, inspirado pelo Espírito de Deus, para levar os homens a Deus e trazer Deus aos homens.

- O P. Rotondi era um homem de entusiasmo. Era vê-lo falar sobre as coisas de Deus e dos jovens: sentia-se de imediato que o que dizia vinha lá de dentro porque tinha sido vivido na oração e na meditação. À hora de comunicar o que tão profundamente estava nele fazia-o com um entusiasmo comunicativo. Era um excelente comunicador.

- O P. Rotondi era um bom comunicador. Muito ligado ao aspeto anterior do entusiasmo, outro que lhe está intimamente unido: é o da comunicação. A comunicação é uma arte. É a arte de trazer o ouvinte ao teu mundo e fazê-lo parte daquilo que queres comunicar. Seja através da atenção que fica presa ao poder expressivo da palavra, à elegância do gesto ou à criatividade das imagens. O Padre Rotondi possuía tudo isso.

- O P. Rotondi era um homem de simplicidade e um homem mariano. Esses dois atributos vão normalmente em conjunto, porque Maria revela muitas coisas de Deus. Revela também a sua simplicidade.

- O P. Rotondi foi um homem de serviço. Nem podia ser de outra maneira. A essência do movimento Oásis é precisamente essa: servir por amor. O ditado popular diz que as palavras leva-as o vento; só o exemplo arrasta. É bem verdade. E, mais uma vez, estamos na dinâmica da coerência já antes mencionada. Ao propor aos seus seguidores uma espiritualidade baseada no Sim de Maria, o P. Rotondi estava a sublinhar, e de que maneira, a dimensão do serviço. A vida de

Maria, desde que ela pronunciou aquele Sim único da Anunciação foi um serviço continuo desde Belém até à Cruz. No meu livro acima referido, eu escrevi em 2001: “O homem nas suas mais variadas situações, não deveria ter medo de ser definido

como ‘aquele que serve’. Esta é a lição do Movimento Oásis. E, já muito antes, era a lição do Evangelho” (pag. 25). O P. Rotondi não só não teve medo de ser assim definido, mas encorajou e continua a encorajar muitos outros a fazê-lo, a “servir por amor”.

- O P.Rotondi foi um homem de esperança. A juventude é a depositária da esperança da humanidade. O P. Rotondi compreendeu isso muito bem. No caminho para o aeroporto confiava-me: “Teófilo, é verdade que a humanidade não pode perecer por falta de amor, mas eu acrescento que não deve perecer por falta de esperança”. Nas palavras do P. Rotondi, surgiam com toda a naturalidade convites a sermos homens e mulheres de esperança. É quase uma caraterística do Oásis. Acreditar que o amanhã pode ser diferente, Creio que o Grupo Universitário dos anos 70 que conheceu tão de perto o P. Rotondi soube ler e viver esta dimensão da esperança nas suas palavras e nos seus ensinamentos. Por isso mesmo creio que viveu essa dimensão de uma maneira muito forte.

Dou graças a Deus, neste centésimo aniversário do seu nascimento, por ter convivido com tão grande mestre. Pouco tempo, é verdade. Mas os grandes mestres têm esse carisma de dizer e, sobretudo, mostrar muito em pouco tempo. Impressiona a profundidade e a qualidade das suas vidas. Nessa altura o pouco tempo é sempre muito. E as lições oferecidas não esquecem. Engendram discípulos. Muito obrigado, P. Rotondi, pelas lições que me deste.

Teófilo Minga

Roma, 7 de fevereiro de 2012

.:2017/2018:. Movimento Oásis: um caminho de vocação. Juventude em discernimento