Gestos Simbólicos do Papa Francisco.
1. Lampedusa ou a solidariedade em ato
Comecemos por um que já vai muito distante no tempo e que traz ao de cima um dos pontos fulcrais do Pontificado do Papa Francisco. A visita à ilha de Lampedusa, praticamente decidida do dia para a noite. Foi no dia 8 de julho de 2013. O mediterrâneo transforma-se num cemitério, começa a ouvir-se frequentemente. Infelizmente, é verdade. E o Papa preocupa-se com a vida destas pessoas, destes emigrantes mortos no mar; barcos que em vez de ser uma rota de esperança, foram uma rota de morte. Na homilia ali feita, recordando um desses naufrágios no Mediterrâneo o Papa confessa: “senti o dever de vir aqui hoje para rezar, para cumprir um gesto de solidariedade, mas também para despertar as nossas consciências a fim de que não se repita o que aconteceu. Que não se repita, por favor”. A solidariedade no coração do Papa, como acontecerá repetidamente. E no coração da homilia a pergunta desafiante que vem da própria Bíblia: “Caim, onde está o sangue do teu irmão?”. E nós: como vivemos a solidariedade para com os irmãos? Sentimo-nos responsáveis pelo seu sangue?
2. Visita às Filipinas: “Misericórdia e compaixão”
Foi uma visita de Estado e apostólica realizada de 15 a 19 de Janeiro de 2015. De facto na mente do Papa estava sobretudo a visita a Tacloban e Palo regiões atingidas pelo Tufão Haiyan em 2013. O Papa viu, como muitos de nós vimos o sofrimento de milhares de pessoas batidas e deslocadas por este Tufão. E no seu coração, “misericordioso e compassivo” sente a necessidade de partir (não fala o Papa muitas vezes de uma Igreja “em saída”?), para dizer àquela porção do seu rebanho, que a Igreja está próximo a essa Igreja local da Filipinas. É uma questão de vizinhança com os que sofrem, com os desafortunados, com os vulneráveis. E era assim que o povo das Filipinas se sentia naquele momento. A canção-tema desta visita apostólica era intitulada "We Are All God's Children", (Somos todos filhos de Deus) foi gravada pela cantora filipina Jamie Rivera. A letra da canção trata de humildade, humanidade e solidariedade "para com os pobres e fracos". Mais uma vez estamos no centro do tema tão caro a Francisco: a humildade, a humanidade, a solidariedade. Na homilia final de despedida no santuário do “Santo Niño” fala do dever de proteger as crianças e os jovens. Temos necessidade de ver cada criança como um dom que deve ser acolhido, amado e protegido. E devemos cuidar dos jovens, não permitindo que lhes seja roubada a esperança e sejam condenados a viver pela estrada. Nas Filipinas um olhar de “misericórdia e compaixão” de um modo especial sobre as crianças e os jovens, muito vulneráveis na sociedade pouco acolhedora de hoje. É um convite que fica para todos nós: somos homens e mulheres de misericórdia e compaixão?
3. Encontro com os líderes de Sudão Sul: o dom da paz; Francisco, peregrino da paz
Um dos gestos mais significativos e mais impactantes que, talvez tenhamos visto do Papa Francisco, é aquele em que se ajoelha e beija os pés dos líderes do Sudão do Sul pela paz, em abril de 2019. Gesto inédito para o presidente da República do Sudão do Sul, Salva Kiir Mayardit, e para os vice-presidentes designados, entre os quais Riek Machar e Rebecca Nyandeng De Mabio. E da riqueza inesperada e simbólica deste gesto podemos, pelo menos, retirar duas lições: 1) a humildade pessoal do Papa. E, na humildade mais facilmente encontramos as pessoas, mais facilmente se realiza a “cultura do encontro”, outro tema central na doutrina e na prática de Francisco. 2) o desejo da paz, num mundo e num país atomizado pela guerra e pela divisão. Tem razão o Papa e outros líderes religiosos meterem-se a fundo na consecução da paz no Sudão Sul porque a guerra civil desde 2013 deixou 400 mil mortos e quatro milhões de deslocados, com quase metade da população reduzida à fome. Em setembro de 2018 foi assinado o Acordo Revitalizado sobre a Resolução de Conflitos no Sudão do Sul. Num momento em que a situação no Sudão Sul piora, mesmo por causa do coronavírus é importante recordarmos Francisco como peregrino da paz. E nós que fazemos para criar uma cultura de paz?
4. A oração de 27 de março de 2020, quando o coronavírus devastava o mundo: uma oração que se preocupa com o mundo.
Ficará na memória de todos a reflexão (momento de escuta da Bíblia), a oração “neste tempo de prova”, a adoração do Santíssimo Sacramento e bênção URBI ET ORBI (isto é, à cidade de Roma e ao mundo inteiro) que o Papa Francisco fez no dia 27 de março de 2020, às 18.00 (hora romana). Foi vista, só na Itália, por 17, 4 milhões de pessoas. Como foi difundida em “mundo visão”, muitos mais milhares ou mesmo milhões de pessoas, terão visto esta oração de extraordinária grandeza e, ao mesmo tempo, de grande sobriedade. O Papa comenta o texto de Marcos 4, 35-41, o texto da tempestade acalmada, por Jesus. O coronavírus é a tempestade dos nossos tempos, fustigando a humanidade inteira.
Se é impressionante ver a praça de São Pedro, completamente cheia, não é menos impressionante vê-la completamente vazia, como no dia 27 de março de 2020. Apenas um homem, vestido de branco, debaixo de chuva, sobe as escaleiras em frente da Basílica de São Pedro para conduzir uma oração pedindo a Deus o fim do flagelo do coronavírus. O coronavírus feriu o mundo. É preciso lutar contra ele, TODOS JUNTOS diz o Papa. Nesta luta a oração e a confiança em Deus não podem nem devem ser subestimadas.
Que valor damos à oração, no nosso encontro com Deus, em favor da humanidade inteira? E que valor damos à oração comunitária sempre em favor dos outros, e neste caso concreto em favor de tantos (de certa maneira todos sofremos) que sofrem com o COVID-19? TODOS JUNTOS, afirma o Papa. Somos nós construtores de comunhão e de pontes nestes tempos de pandemia?
5. Uma maratona de oração, uma oração global, pelo fim da pandemia
O último dos gestos simbólicos do Papa Francisco para o meu artigo, foi muito fácil de fazê-lo. Bastou-me ler o jornal AVVENIRE de hoje (1 de maio de 2021), onde encontro outra proposta audaciosa do Papa, para rezar pelo fim da pandemia que há mais de um ano fustiga o mundo inteiro. E a batalha está para durar, ainda. O Papa propõe um mês de maio, muito original. Para cada dia do mês de maio deste ano, um santuário mariano, algures no mundo rezará o Terço para que o Senhor pare esta pandemia (cf. páginas 6 e 7 do jornal). O Papa toma as armas de uma oração bem conhecida do povo cristão, de uma oração ao alcance de todos. O TERÇO. E na página 7 temos este título: “O Terço? É um testemunho de amor. É um caminho para chegar ao coração de Deus”. E o Papa quer comprometer a todos nesta oração, porque a pandemia faz mal a todos. Esta cadeia extraordinária de oração começa, dia 1 de maio, precisamente, no Santuário de Nossa Senhora de Walsinghan, o coração mariano da Inglaterra, um recinto mariano para católicos e anglicanos. Passará pelo Santuário de Nossa Senhora de África, no dia 12 de maio na Argélia, onde Maria é invocada por cristãos e muçulmanos. E terminará no dia 31 de maio, no Vaticano. Pelo caminho, como não podia deixar de ser, Portugal entra nesta maratona de oração, no dia 13 de maio. Vamos todos nós, portugueses, entrar nesta cadeia de oração a que Francisco no convida. Teremos a coragem de o fazer? Um mês de maio diferente, extraordinário. Entremos, confiantes, nesta cadeia de oração mariana. E a pandemia será destruída.
Temos que agradecer ao Papa Francisco tantos e tantos gestos simbólicos que tem partilhado connosco. Eu escolhi apenas cinco. Mas há muitos mais. Podíamos tomar cada um dos seus escritos, uma riqueza insuspeitável que ele nos oferece. Menciono, de passagem, duas das suas Encíclicas que se tornaram textos de antologia universal e que nos mostram dois dos grandes amores de Francisco: 1) Laudato sí e a proposta de uma ecologia integral para salvar o planeta e para nos salvarmos nós mesmos. 2) E Fratelli tutti, um hino à fraternidade humana. Somos todos irmãos. É uma certeza que vem de longe. Vem do Evangelho, Mateus 23, 8. Estamos convencidos disso, como está o Papa Francisco? Nestes tempos difíceis ele atua como sábio e como pastor. Somos convidados a fazer o mesmo: a atuar como sábios e pastores. Todos somos responsáveis de todos.