Anunciação de Piero della Francesca (Arezzo).
O grande fresco da Anunciação, obra-prima do renascimento, integra-se nas Historias da verdadeira cruz na capela-mor da basílica de são Francisco em Arezzo, pintado entre 1452 e 1458. A anunciação parece não se enquadrar no resto dos frescos desta capela Bacci, sobre as histórias da cruz. Porém não se pode esquecer que segundo a tradição da época a crucifixão e a anunciação eram evocadas no mesmo dia 25 de março.
Maria recebe o anúncio do anjo abrigada sob um alpendre clássico. À esquerda, em cima, Deus Pai, ancião barbado sobre nuvens, envia o Espírito Santo, na forma de raios saídos das suas mãos.
O anjo Gabriel vestido de hábito madrepérola, curva-se e saúda Maria sustentando na mão esquerda não a habitual flor de lírio, mas com um ramo de palmeira, presságio do martírio de Cristo. Como a árvore só dá fruto quando parece morta foi escolhida como símbolo do sacrifício dos mártires. O ramo de palmeira evoca igualmente o da árvore doada pelo Arcanjo Miguel a Set para o plantar no túmulo de Adão e, portanto. estabelece uma conexão com a árvore da cruz. Aliás, segundo Jacopo da Varazze a cruz é composta de quatro árvores, uma das quais a palmeira.
Maria, vestida de túnica vermelha, manto azul brilhante e véu branco, volta-se para o mensageiro, com gesto de surpresa, segurando na mão esquerda um livro, símbolo da Palavra de Deus que se vai cumprir. O dedo no meio das páginas mostra a leitura interrompida de quem estava em oração. As pálpebras baixas denotam reflexão.
Como fundo, uma construção arquitetónica, espelhos de mármores e embutidos de madeira, com jogo de cubos tridimensionais, oferecem o ambiente da época. Já está presente a porta fechada, símbolo da virgindade. A coluna separa verticalmente duas metades, a representar o mundo divino e o mundo humano. A diagonal da luz do Espírito rompe e une as mãos do Pai e o rosto de Maria.
Acolher a mão cheia de luz do Espírito continua a rasgar caminhos novos, vividos na dor da cruz, mas permitindo Cristo renascer hoje num mundo obscuro. O silêncio orante de Maria acredita na maravilha do Altíssimo.