O Ecumenismo de Francisco como Sinal do Reino.
«Muitos conflitos foram fomentados também por formas de fundamentalismo e fanatismo que, disfarçados sob pretextos religiosos, na realidade blasfemaram do nome de Deus, que é paz, e perseguiram o irmão que vive desde sempre ao seu lado».
«Unidos nesta fé, devemos tentar, com determinação, tornar visível a nossa comunhão».
As palavras em epígrafe constituem uma parte do discurso do Papa Francisco, na conclusão do Encontro de Oração e Reflexão sobre o Médio Oriente, em Bari, em Julho de 2018, e as que dirigiu a Bartolomeu, o Patriarca Ecuménico de Constantinopla, no mês de Novembro do mesmo ano. Chamo-as a esta reflexão com a assumida intenção de uma apologia do Cristianismo mais próxima do Evangelho do Reino do que das apologéticas teológico-políticas que, aqui e acolá, vão seduzindo alguns dos católicos nossos contemporâneos. Refiro-me, naturalmente, ao tradicionalismo católico emergente, defensor de um catolicismo muito pouco próximo de um cristianismo evangélico.
Como reconhecer este tipo de catolicismo?
Brian Flanagan, professor da Marymount University in Arlington, no Estado da Virgínia, escreveu um interessantíssimo artigo – «‘New Ultramontanists’: Why do some Catholics fear change?», National Catholic Reporter (Aug. 13, 2018) – estabelecendo um paralelismo entre este tradicionalismo católico emergente e o Ultramontanismo do século XIX, sublinhando, entre outros, dois elementos pertinentes para a nossa reflexão:
§ tal como em Oitocentos, também hoje a difusão do catecismo tradicionalista é operada a partir de plataformas não necessariamente académicas: «em ambos períodos, foram jornalistas que promoveram estas ideias […], mais do que teólogos académicos ou até mesmo clérigos e bispos. […] Os ultramontanistas de hoje, de modo semelhante, difundem as suas ideias não do púlpito ou da academia, mas através do First Things, do New York Times, da blogosfera católica e do Twitter» (Ibid.) e – acrescento eu – através das suas páginas pessoais e institucionais de redes sociais como o Facebook;
§ paradoxalmente, este neo-ultramontanismo é estranhamente muito pouco simpático, e por vezes até muito agressivo e violento, em relação ao pontificado do Papa Francisco.
Diante daquilo a que Flanagan chama de «contradição em termos», uma constatação emerge muito clara: «o que liga os dois movimentos não é a defesa de um papado em particular, mas a oposição à mudança» (Ibid.).
Mas a questão impõe-se novamente: como reconhecer este tipo de tradicionalismo católico emergente, definido por Brian Flanagan como neo-ultramontanismo, por exemplo em Portugal? Uma boa forma, parece-me, é percorrer algumas das páginas institucionais – como, por exemplo, a da FSSPX – e, a partir delas, aceder aos comentários e aos perfis de quem por lá escreve. Veremos coisas absolutamente assustadoras, e tudo em nome da verdade. Sintetizo quatro das barbaridades que já li:
§ defesa de uma igreja cruzadística e agressiva, por exemplo pela anatematização de todos quantos se empenham em diálogo ecuménico e inter-religioso;
§ defesa de um braço combativo – suponho eu, armado – para fazer frente – suponho eu, violenta – à ameaça islâmica;
§ defesa de uma instância condenatória da heresia – vulgo, Inquisição – e da manifestação do prazer que daria presidir a um auto-de-fé;
§ e, mais recentemente, todo o género de teorias conspiratórias relacionadas com a pandemia do Covid19.
A este propósito, creio pertinente chamar a atenção para o que já há uns anos afirmou Umberto Eco, quando disse que as redes sociais deram o direito da palavra a legiões de imbecis, que antes somente falavam depois de beber um copo de vinho (cf. Il Messaggero, 12 de junho de 2015).
O problema não está, claramente, só nos disparates que se escrevem ou dizem, mas na forma como, por essa via, o mal vai penetrando com alguma eficácia no coração das pessoas, principalmente dos mais jovens, formando opinião e potenciando a ação que, sendo inevitavelmente política – porque assim é toda a ação humana – vai abrindo portas à emergência de estruturas teológico-políticas contrárias ao Evangelho do Reino.
Parece-me ainda pertinente, neste contexto, apontar algumas das características que Umberto Eco define para o reconhecimento daquilo a que chamou de «fascismo eterno» ou Ur-Fascismo (cf. Eco, 2017): culto da tradição; rejeição do modernismo; irracionalismo; medo da diferença; autojustificação messiânica a partir da frustração das massas perante os falhanços do contexto; obsessão da conspiração; apologética da força e ridicularização do pacifismo; elitismo; culto da morte; etc.
Rejeitar cristãmente as lógicas da violência que se reconhecem, em alguns traços, tanto no que define o fascismo eterno como no que se expressa desse tradicionalismo católico emergente, é uma forma de proclamar o Evangelho do Reino, estando convencidos de que mesmo de uma «maneira provisória e inadequada […], Deus é verbalizável, isto é, experimentável pela mediação de todas as gramáticas e de todos os léxicos da humanidade, porque o conjunto das gramáticas e dos léxicos de todos os tempos e latitudes tem origem no acto da criação e é tradução, sempre incipiente e imperfeita, da Palavra única de Deus» (Duch, 2017: 89) e que, como afirma o Papa Francisco, a Paz «deve ser cultivada mesmo nos terrenos áridos das contraposições, porque hoje, apesar de tudo, não há alternativa possível à paz. Não são as tréguas garantidas por muros e provas de força que trarão a paz, mas a vontade real de escuta e diálogo» (Francisco, 2018).
E cultivá-lo entre aqueles cuja vida se ancora à de Jesus de Nazaré pode ser um eloquente sinal do Reino. Por essa razão, contra toda a forma de violência e opressão, agressividade ideológica e anatematização patológica, creio que o ecumenismo lato sensu é um sinal profético do acolhimento autêntico do Evangelho do Reino, condição sine qua non para que a realidade, que tensa e escatologicamente vivemos, seja um pouco menos dissemelhante da que esperamos.