José, o «pai na sombra».

Oficina de São José (início do séc. XVII), Museu Capitular Diocesano de Foligno, Itália.

Concluiu-se a 8 de dezembro o Ano de São José, convocado pelo Papa Francisco para celebrar os 150 anos da proclamação do esposo de Maria como Padroeiro da Igreja Católica. Tal proclamação foi realizada por Pio IX, a 8 de dezembro de 1870, pelo decreto Quemadmodum Deus, de teor “depressivo”, ao sabor da apologética do tempo, mas ainda assim com a sua leitura dele. Francisco convocou o Ano de São José pela carta apostólica Patris Corde, de 8 de dezembro de 2020, pela qual sublinhou positivamente diversas facetas do pai putativo de Jesus, sugestivas para os nossos dias: «Pai amado», «Pai na ternura», «Pai na obediência», «Pai no acolhimento», «Pai com coragem criativa», «Pai trabalhador», «Pai na sombra». Valerá a pena revisitar o texto e meditar sobre cada um destes epítetos, também no percurso que nos aproxima e conflui no Natal com a ajuda de José.

Fico-me pelo último epíteto: «Pai na sombra». Francisco ilustra-o recorrendo à obra A sombra do Pai do escritor polaco Jan Dobraczyński. Segundo o pontífice, «a sugestiva imagem da sombra, apresenta a figura de José, que é, para Jesus, a sombra na terra do Pai celeste: guarda-O, protege-O, segue os seus passos sem nunca se afastar d’Ele».

Recordei a imagem da sombra referida a São José, quando recentemente me cruzei com uma pintura da Família de Nazaré e com um texto de Claudio Strinati a ela alusivo, intitulado, já em tradução portuguesa, Qual pai na sombra (Mensário Donne Chiesa Mondo de dezembro, de L’Osservatore Romano). Trata-se de uma grande e bela pintura realizada para a Igreja de Santa Maria Assunta de Serrone, hoje no Museu Capitular Diocesano de Foligno, em Itália. A pintura é atribuída a um pintor flamengo que presumivelmente terá vindo a Itália nos inícios do século XVII, atraído porventura pelo estilo de Caravaggio.

A tela revela Maria, José e Jesus na oficina de José, representada com minuciosos detalhes, designadamente nas ferramentas e materiais do carpinteiro ou nos instrumentos e recursos de costura da esposa, com que o Filho também se entretém. Expressiva é a cruz em que vai enrolando o fio, certamente a prenunciar o seu destino pascal. É-o também a porta aberta nas costas de José, a permitir a entrada da luz que anima a cena, num sugestivo contraste de claro-escuro, bem ao gosto do tenebrismo barroco. Sobressaem os rostos de Jesus e de Maria, enquanto José, atento, humilde, reservado e já marcado pelos anos, permanece na sombra, em fidelidade ao papel nobre e discreto que lhe coube de acompanhar e proteger o Menino. Destacando o rosto de José imerso na sombra, Strinati sublinha que «deste modo refulge o pai putativo da tradição que significa a função paterna desvinculada do fator biológico que compete exclusivamente à mãe».

Voltemos novamente a Francisco e ao que refere na Patris Corde a respeito da “paternidade na sombra” de José: «A paternidade, que renuncia à tentação de decidir a vida dos filhos, abre sempre espaços para o inédito. Cada filho traz sempre consigo um mistério, algo de inédito que só pode ser revelado com a ajuda de um pai que respeite a sua liberdade. Um pai sente que completou a sua ação educativa e viveu plenamente a paternidade, apenas quando se tornou “inútil”, quando vê que o filho se torna autónomo e caminha sozinho pelas sendas da vida, quando se coloca na situação de José, que sempre soube que aquele Menino não era seu: fora simplesmente confiado aos seus cuidados».

A “inutilidade” de José emerge na sombra que tanto o revela como o apaga, ou mesmo na porta que discretamente terá feito tanto para proteger como para se abrir e se ver menos, servindo o desvelar da luz divina naquele Menino.

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