A força da pedra angular em Caravaggio.
Celebram-se 450 anos do nascimento do pintor Michelangelo Merisi, conhecido como Caravaggio, que viveu entre 29-09-1571 e 18-07-1610.
Sendo o pintor que mais admiro, escolho uma obra sua para olharmos juntos. Quem visita Roma não deixa de ir à igreja de São Luís dos franceses para ver as três pinturas da vida de São Mateus, nem à igreja de Santa Maria del Popolo para contemplar os admiráveis quadros do martírio de São Pedro e da Conversão de São Paulo.
Aqui, quero simplesmente olhar para a Deposição de Cristo, conservada agora nos Museus Vaticanos. Foi realizada para a Chiesa Nuova dos Padres do Oratório de S. Filipe de Neri, entre 1602 e 1604. O ambiente dos oratorianos era acolhedor na atenção ao estudo profundo da história e da teologia e atento a cada pessoa, atraindo artistas e intelectuais. Seria levada por Napoleão para Paris (1797-1817), restituída ao Vaticano e destinada à Pinacoteca Vaticana, deixando cópia na igreja.
O que representa o quadro? Diz o evangelho de Marcos (15,42-47): “Ao cair da tarde, José de Arimateia, membro de destaque do Sinédrio, que também esperava o Reino de Deus, dirigiu-se corajosamente a Pilatos e pediu o corpo de Jesus. Pilatos ficou surpreso ao ouvir que ele já tinha morrido. Chamando o centurião, perguntou-lhe se Jesus já tinha morrido. Sendo informado pelo centurião, entregou o corpo a José. Então José comprou um lençol de linho, baixou o corpo da cruz, envolveu-o no lençol e o colocou num sepulcro cavado na rocha. Depois, fez rolar uma pedra sobre a entrada do sepulcro. Maria Madalena e Maria, mãe de José, viram onde ele fora colocado”.
O tumultuoso Caravaggio acolhe as preferências iconográficas do Oratório, fundadas na erudição histórica. O túmulo de Cristo não corresponde a um sarcófago, como em muitas representações do renascimento. A atitude orante de Maria de Cléofas, com os braços levantados, deve ser lida em conexão com a devoção de Filipe de Néri aos túmulos dos mártires nas catacumbas e à visita às sete igrejas.
Era “tarde”: a deposição ocorre no escuro do entardecer. O corpo de Jesus recolhe a luz de todo o quadro. Representado com a cor cadavérica alude ao poder da luz que aquele Corpo oferecerá ao terceiro dia. A figura de Nicodemos, mencionado somente por João (para outros José de Arimateia), que Antonio Paolucci considera provável retrato de Pietro Vittrice, segura o corpo de Jesus pelas pernas. O olhar desolado e profundo que dirige ao espectador favorecem a participação de quem olha aquele momento tão íntimo. Atrás, estão testemunhas históricas da crucifixão, que permaneceram até ao fim junto da cruz.
João ajuda Nicodemos a sustentar o corpo do Mestres amado, com a mão direita, semelhante à Pietà de S. Pedro no Vaticano – a procurar o lado aberto de Jesus, via aberta no coração de Cristo, e a outra pousada sobre o tórax.
Maria, mãe de Jesus, alarga os braços, estende a mão direita sobre a cabeça de Jesus, como a querer defender e guardar o corpo de Filho. Exprime a materna tensão, a proteger também João, como recomendou Jesus na cruz e agora a Igreja e os cristãos.
Semelhantes são Maria de Magdala que chora e Maria de Cléofas que levanta os braços, como se fossem a mesma pessoa em duas atitudes diversas: a penitência pela remissão dos pecados e a invocação ao céu na oração.
A lastra de pedra, com o seu ângulo voltado para nós, é a verdadeira protagonista do quadro. Seja represente a pedra sobre a qual se estendeu o corpo de Cristo para a unção antes da sepultura, seja represente a pedra do sepulcro, a força daquele ângulo à altura do olhar dos devotos (quando estava no retábulo do altar) tem uma mensagem. Não podemos esquecer o salmo 118: “a pedra rejeitada pelos construtores tornou-se pedra angular”. Deixado fora da construção, Deus levantará Jesus Cristo como pedra de ângulo da abóbada, que segura a construção. O que foi posto de lado, tornou-se fundamental. Cristo é rejeitado pelo povo do antigo Israel. Deus transforma o rejeitado em Salvador, o recusado em Libertador.
A pedra vista de ângulo torna-se alusão a uma pedra posta de lado, sepultada, com poucos crentes unidos à pedra viva, também visível no corpo sem vida, que sustentam, choram, derrotados. Esta pedra testemunha, com a provocação do ângulo, a ressurreição prometida, a vida de amor que resiste sempre, a fundação de uma comunidade e de um novo povo. Ao ver o corpo abandonado, traído, do qual ficam próximas poucas pessoas, a verdade da pedra que se torna pedra angular, identifica-se com a esperança na salvação para quem encomendou a pintura e para os fiéis que a observam.
A planta, que cresce sob a lastra tumular, quer talvez aludir à vida que, mesmo no escuro da morte, luta por reemergir, como tímida promessa.