Daniel Faria: 50 anos de vida para abrir sentido.
Acaba de sair mais um inédito “O sétimo dia”. A vida do poeta prossegue a abrir sentido para percorrer a condição humana. Ocorreu, no dia 10 de abril de 2021, 50 anos da vinda ao mundo do notável poeta Daniel Faria (10-04-1971 a 09-06-1999), que esteve na origem da criação do que viria a chamar-se Casa Daniel, situada na Granjinha, perto do Mosteiro de São Pedro das Águias, por ele visitado em anos sucessivos.
Jesus, como os poetas e os construtores do futuro, faz belas comparações, mas os discípulos “não compreenderam o que queria dizer”. Não compreender não é questão meramente intelectual, mas sobretudo negação em aceitar o desafio que as parábolas significam. Então o Mestre decide falar claro: “Eu sou a porta. Quem entrar por mim será salvo. Eu vim para que tenham a vida e vida em abundância.” Jesus é a porta para uma morada, sem casa. Inspirado em São João da Cruz, Daniel adverte que “é a morada / que cresce destruindo a casa” (219). Só quem entra pela porta de Jesus passa a habitar a novidade da vida, a fazer morada, sem possuir casa. A nossa morada é geralmente a nossa casa, mas ao ser porta do rebanho Cristo convida-nos a entrar na salvação, na abundância da vida, a participar da sua vida, ser morador do seu viver em caminho, sem casa. Antes e depois dele, pode-se entrar na porta do redil para roubar, matar, destruir, como os fariseus, os sacerdotes, os bandidos. Daniel denuncia: “A porta / é um batente no principio. Nem todos entram / da mesma forma. Sim / que sabemos das aparências?” (220)
Hoje tantas propostas e estilos de vida entram para destruir pessoas, desfazer famílias, dispersar comunidades. A abertura para uma vida salva requer portas que abram para a esperança real.
“A porta mora à espera” foi a expressão poética que serviu e serve de slogan à Casa Daniel. Diz todo o poema, da série da “explicação das casas”:
A porta mora à espera / De perfil se ensombra / e descansa /
O degrau é paciência / O umbral anúncio / O silêncio é o lugar / onde baterão as mãos (55).
Jesus é a porta, o mediador para a passagem de uma sabedoria perdida. É uma porta que não desespera, mas descansa à espera. Igualmente o poeta nos diz: “Sou a casa ao lado de outra casa e volto-me para a rua /… sou a porta e bato de casa em casa, / sou quem vai abrir e não há ninguém” (320). Quantas vezes Cristo é esta porta aberta a bater-nos em casa e não respondemos, demasiado por fora de nós mesmos.
Daniel implora a Deus: “deixa-me ser a porta no eixo / porta para trás pela mão de quem entra / deixa-me ser o chão assiduamente / quero ganhar a forma / do degrau / a forma da mão que se abre quando nada tem / e quero a mão, no entanto...” (244).
Antes de entrar na porta, importa enfrentar os degraus. E “o degrau é paciência”. Demora ganhar a forma de degrau para que outros tenham acesso à porta, ganhar a forma da mão que abre bem a porta e a mão que se abre porque não segura nada.
Espantoso, porém, é quem o Daniel vê a percorrer os degraus: “Deus / sobe os degraus com a noite nos braços” (219). As nossas noites, as nossas obscuridades, a nossa escuridão, no colo de Deus a fazerem a subida do monte! Que maravilha! A Casa Daniel chamará à quietude as noites, conduzindo a uma harmoniosa luz que santifica o tempo e dá sentido aos lugares e espaços da nossa história e da história da humanidade. A escalada para Deus, para o essencial, opera-se dentro da casa. O poeta refere-se aos degraus interiores que nos transcendem, ao escrever: “Mesmo no interior do quarto / és o lado de fora da casa / os inúmeros degraus da casa… (58). “Portanto farei uma escada no coração. E pelos degraus subirei da minha casa / até bater com o pensamento no altíssimo.” (214). Eis o modo do monge-poeta dizer como o entrar pela porta, que é Cristo, eleva a vida, faz subir, não no poder ou na fama, mas no coração centrado nos outros para que tenham vida e vida em abundância.
A busca da sabedoria, pela meditação assídua, é a luz da casa interior que ilumina a porta para quem entra. Trata-se de um processo muito duro, “a violenta / escuridão de se abeirar da luz”. (221). Daniel informava: “A casa está mortificada – a violência que abriga / é uma mansidão vertiginosa. A Sabedoria / é um trabalho cheio de tempestades” (219). Ora vejam: “mansidão vertiginosa”! “Trabalho cheio de tempestades”! Nada de quietismos piedosos e sede de consolações egoístas. Apenas a força dos paradoxos descreve a experiência mística de quem verdadeiramente busca a Deus: E nunca / por mim mesmo fecho a casa. / É aos alicerces que comparo o anjo que me guarda. É em casa / que recebo tudo o que me deixa ao relento/ … (273). A Casa não é o abrigo seguro do sossego. Afinal o ambiente protetor da casa cria condições para o desabrigo, o relento.
A descoberta negativa de Deus acontece: “habito a casa/ que me desabita / Passa ao longe a casa aonde mora o meu olhar / e a esperança / E doem-me as janelas abertas / das casas sem moradores / e os peitoris doutros corpos / este templo é do deus em que não creio” (395). O Daniel fazia a experiência profunda e indicava o seu percurso: “Entro. Conheço a minha casa. É mansa / sinto-lhe a respiração. Dorme sobre os meus pés/ ...” (306). A respiração do Espírito gera esta humanidade de relações e inter-relações que tecem a vida.