Don’t look up!
No final do ano passado fomos surpreendidos com “Don’t look up”, uma comédia realizada por Adam Mckay e com um elenco de luxo com não deixou ninguém indiferente. Neste filme dois astrónomos praticamente desconhecidos descobrem um cometa em rota de colisão com a Terra e ativam todos os meios que têm à disposição para alertar as autoridades. A incredulidade apodera-se destes cientistas quando se apercebem que o cometa não é o maior problema, mas sim uma sociedade entretida e distraída, incapaz de reconhecer a realidade, e uma classe política cega pelos seus próprios interesses.
Leonardo DiCaprio, um dos protagonistas do filme, afirma em entrevista que Don’t look up é “uma analogia da cultura moderna e da nossa incapacidade de ouvir a verdade científica”. Tristemente esta sátira reflete mesmo alguns aspetos característicos da nossa sociedade atual. Por um lado, põe em evidência o período da pós-verdade em que vivemos, caracterizado por um crescente primado do fator emocional sobre os factos, que nos conduziu até à atual pandemia da desinformação. Por outro, caracteriza a sociedade do entretenimento, na que todos os dias cada pessoa percorre em média dois quilómetros de scroll nas redes sociais, mas na que há um subdesenvolvimento das dimensões científica, criativa e espiritual. Há sem dúvida um contraste enorme entre este panorama e a promessa de Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres” (Jo 8, 32). Como sair desta bolha de distração e desinformação? Como recuperar a procura conjunta da verdade que nos liberte da indiferença e dos populismos?
Apesar da existência de diferentes interpretações, o filme parece ser uma metáfora perfeita da forma como, enquanto humanidade, estamos a lidar com as mudanças climáticas. Talvez a solução provenha daí e o melhor ponto de união entre a ciência e a espiritualidade, como dois caminhos de procura da verdade, seja a nova consciência ambiental. A necessidade de habitar a nossa casa comum como criaturas dependentes dela e não como seus donos, urge-nos a passar da exploração ao assombro e ao cuidado. Essa pode ser a nossa grande motivação para desaprender alguns hábitos, típicos de uma sociedade de consumo e descarte e ajudar-nos a recuperar a atenção, a contemplação e a curiosidade; a ressignificar o nosso tempo, hábitos e relações e a viver a experiência transformativa da comunhão desde a experiência de conhecimento científico do mundo e da experiência de amor que o une.
(A partir das notas pessoais no Atelier “Escuta a Vida toda: ciência e espiritualidade” do Dr. Miguel Oliveira Panão).