After Life por Ricky Gervais.

Série After Life, por Ricky Gervais. Tony e viúva.

A cultura e a arte são meios ativos para trabalharmos a nossa espiritualidade contemporânea ou, eventualmente, uma forma de oração para os que acreditam. Desde sempre que a arquitetura das igrejas, as esculturas dos santos e as pinturas refletem os ideais de cada época e, em todos os estilos, os cristãos foram sentindo e encontrando aí, ora o escuro refúgio do Românico, ora a luz e a dimensão contemplativa dos vitrais do Gótico.

Atualmente, a oferta e a diversidade de cultura que nos é permitida ver e o contacto com as histórias dos filmes e séries podem ser, também, uma verdadeira oportunidade de reflexão sobre a nossa existência e para reafirmarmos os nossos valores.

Em particular, na considerada 7ª arte, os atores têm o verdadeiro trabalho e dom de encarnarem uma personagem num contexto específico e o poder de nos fazer sentir empatia, amizade, esperança ou mesmo dor. A série britânica “After Life” de Ricky Gervais é um exemplo disso. A comédia dramática conta-nos a história de um homem que lida com a morte recente da sua esposa, depois de ter sido diagnosticada com cancro. O personagem, Tony, passa os dias a rever filmagens e preso a memórias, com um sentido de injustiça insuportável, que o fazem viver com tristeza, revolta e sarcasmo com todos os que o rodeiam, sem sentir que o que diz possa ter qualquer tipo de consequência pior do que o próprio luto, pesado e monótono, pelo qual já está a passar.

Inicialmente, acreditamos que o único motivo pelo qual Tony não termina com a sua vida é o cão do casal, que depende do dono e é a sua companhia. No entanto, no desenrolar da série, o protagonista vai deixando florescer a sua bondade, mesmo com aqueles com quem é mais impaciente e que considera mais “inúteis”.

Para além do protagonista, uma das personagens mais interessantes nesta narrativa é uma viúva idosa, que Tony conhece no cemitério onde vai visitar a campa da mulher. É ela que interpreta frases-chave no meio das conversas e confissões entre os dois e, no fundo, na vida de todos nós:
- “Como é aquela frase do Mark Twain? Tive muitas preocupações na vida, a maioria das quais nunca aconteceu.”;

- “Uma sociedade torna-se melhor quando velhos plantam árvores e à sombra das quais nunca se vão sentar.”;

- “Tudo o que temos é uns aos outros.”;

- “A felicidade é maravilhosa. É tão maravilhosa, que não importa se é nossa ou não.”;

- “A ciência permite-nos perceber como viver mais tempo. Os sentimentos dão-nos a razão para o querer.”.

Uma série que fala de perda, de suicídio, de indiferença, de depressão e de saudade, cheia de questões que nos invadem o pensamento e que, apesar de tudo, continuamos sem saber dar resposta.

 Enquanto cristãos, que possamos sentir a presença de Deus quando a vida nos obrigar a questionar sobre qual é o sentido da vida, sobre o valor de cada um de nós - mesmo quando perdemos quem temos ao nosso lado, mesmo quando temos de reinventar o nosso futuro - e sobre o papel e o valor dos outros no mundo e na nossa vida.

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