«Dos Homens e dos Deuses» - Uma leitura espiritual do filme

Título original: Des hommes et des dieux

De: Xavier Beauvois

Com: Lambert Wilson, Michael Lonsdale, Philippe Laudenbach

Género: Drama

Outros dados: FRA, 2010; O filme recebeu o Grande Prémio do Júri do Festival de Cannes de 2010 e segundo o jornal New York Times é provavelmente o melhor filme sobre compromisso cristão.

 

“Dos Homens e dos Deuses” é uma reflexão sobre homens e fé e sobre os homens de fé. Uma reflexão sobre espiritualidade, humanismo, diálogo e fraternidade. Um filme que recomendo (re)ver pela profundidade e atualidade da sua mensagem de paz, fraternidade e convivência entre o cristianismo e o islão, de coerência, vocação, entrega e fidelidade ao Amor.

Esta é a história verídica dos monges de Tibhirine, raptados e assassinados por um grupo de fundamentalistas islâmicos durante a guerra civil argelina, em 1996. O Mosteiro de Nossa Senhora do Atlas, fundado em 1938 na cidade de Tibhirine, foi o cenário de um dos episódios mais sangrentos da guerra civil argelina na década de 90 do século XX.

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Este filme retrata a forma de vida de uma pequena comunidade de oito monges trapistas nas longínquas montanhas do Atlas, e do seu convívio com a comunidade árabe residente na proximidade.

“Dos Homens e dos Deuses” começa por partilhar o quotidiano dos monges: do cultivo das hortas às orações, passando pelas discussões teológicas e filosóficas entre eles ou com os moradores da região.

Estes monges católicos franceses vivem em harmonia com a população muçulmana, até que, progressivamente, a violência e o terror tomam conta da região, obrigando-os a questionar se deviam partir ou não. Apesar das ameaças, os religiosos decidem resistir ao terrorismo e ficar, conscientes do preço dessa escolha.

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Esta obra é uma extraordinária ode à fé, ao amor ao próximo e ao espírito de serviço. Um filme extraordinário sobre a paz, a fraternidade e a tolerância. O episódio em que os monges rezam em conjunto com muçulmanos num batizado, sublinha a mensagem de tolerância. Segundo o patriarca da aldeia muçulmana, a comunidade é como um bando de pássaros nos ramos de uma árvore que não decidiu se parte ou se fica. O mosteiro representa os ramos da árvore e a aldeia os pássaros, pois não subsistirão sem a comunidade religiosa.

A certa altura do filme, os monges começam a discutir as razões da sua presença. Ficar e apoiar a população ou fugir ao sacrifício que parece inevitável? E a pergunta final é colocada por um deles: “que faria Deus nesta situação?”. O realizador opta por mostrar todos os pontos de vista. A certa altura a questão é colocada a cada um de nós. Que faria eu neste caso? Ficava? Fugia?

Jesus  mostra-nos bem que o Amor é a única razão válida tanto para viver como para morrer: “É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15, 12-14).

Se nos deixarmos conduzir pelo Espírito de Cristo, começamos a tomar uma série de atitudes que, sem serem uma cópia das de Jesus quanto ao modo, são idênticas às de Jesus quanto à dinâmica do amor libertador.

Mais do que sublinhar o horror dos acontecimentos, trágicos, e da crescente violência, o realizador opta por sublinhar o espírito com que aquela comunidade monástica os enfrenta. Este filme reflete a consistência da vocação pessoal dos monges, bem como a sua oração, as suas dúvidas e as suas decisões; o discernimento comunitário, difícil, doloroso e ao mesmo tempo alegre, sintetizado magistralmente na última cena, que mostra a passagem da dúvida e do medo à entrega e à paz.

Por isso, mais que um trágico episódio da história política ou religiosa, estamos perante uma obra que nos propõe um caminho, pela busca do verdadeiro sentido da vida: o que os sete monges sacrificados, na sua fé cristã, encontraram.

Na madrugada do dia 27 março de 1996, os terroristas do Grupo Islâmico Armado (GIA) assaltaram o mosteiro e sequestraram 7 monges. As negociações para trocar os monges pelos prisioneiros do GIA não funcionaram e, em 21 de maio de 1996, os terroristas anunciaram que tinham decapitado os 7 monges.

A voz dos monges de Tibhirine não se extinguiu na primavera de 1996. Ainda hoje se eleva para dirigir «um apelo a toda a humanidade»: a de «apostar numa presença fraterna, onde homens e mulheres podem amar-se para além das diferenças de religião e de cultura».

Este filme, inspirado no sacrifício destes monges, pode ser um fermento de reconciliação entre cristãos e muçulmanos. O exemplo dos monges, no seu relacionamento com os muçulmanos, mostra que nos podemos tornar verdadeiros irmãos, em comunhão, juntos, em profundidade e não apenas na superfície. Em profundidade, diante de Deus.

Por isso se diz que este «não é um filme religioso, é um filme espiritual que consegue descer até à verdade da experiência humana». Um filme que nos faz refletir sobre o Amor, a fé, a vida, a morte, o bem e o mal.

Em 08.12.2018, estes monges mártires foram beatificados na Argélia. O cardeal Angelo Becciu, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, recorda os monges de Tibhirine como um exemplo de "amor puro e desinteressado": "eles não escolheram o martírio, escolheram viver coerentemente a sua vocação

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