J. R. R. Tolkien: um contador de histórias.

A cultura pop, ainda que por vezes considerada mais parca na sua linguagem, não deixa de nos presentear com inúmeras leituras de realidades riquíssimas. E dentre as formas mais comuns de apresentar narrativas para um público mais geral, como é o caso das obras literárias e cinematográficas, é certo e sabido como muitas nos colocam diante princípios ou dilemas de índole cristã.

Posso até concordar neste primeiro momento que muitos dos comentários com que me deparo nos tempos contemporâneos possam parecer demasiado forçados, não tendo sido sequer intuito do autor da própria obra que essa fosse relida em confronto com a realidade do Evangelho. Mas é também do conhecimento geral que há muitas outras onde há de forma clara uma intenção de evangelização que parte do próprio narrador, como é o tão famoso caso da trilogia de O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien.

Não será certamente novidade para os mais atentos que Tolkien foi um verdadeiro homem crente, fruto essencialmente das suas circunstâncias biográficas. Desde a infortuna morte prematura de sua mãe e passando pela consequente tutoria por parte de um padre Oratoriano, este homem foi crescendo na fé e revelou-se, já em idade adulta, um verdadeiro católico fervoroso e militante. Como um dos fundadores dos The Inklings – um grupo de literatos de Oxford responsáveis pelo debate, redação e promoção de obras com valor cristão – não esconde assim a base de inspiração para aquilo que escreve. E ainda que por vezes não sendo tão explícito na narrativa como C.S. Lewis, confirmou-nos em vida que esta sua obra-prima era fundamentalmente religiosa, ainda que de forma inconsciente durante a sua redação, mas certamente consciente aquando da sua revisão.

Embora nunca me tenha dedicado a uma aprofundada leitura dos seus escritos, tive a oportunidade, tal como muitos outros da minha geração, de me aproximar desta obra por meio da fascinante adaptação cinematográfica de Peter Jackson, merecedora de 17 óscares entre as suas 30 nomeações. E tendo recentemente a disponibilidade de revisitar Middle-earth por meio dos três filmes pude já, possivelmente também fruto de alguma maturidade, recordar e confirmar uma data de comentários que me foram chegando ao longo dos últimos anos e que me permitem agora olhar para esta história não apenas como uma inocente obra de ficção, mas antes como uma verdadeira tentativa de evangelização por meios mais narrativos.

Poderia agora adentrar por uma apresentação mais detalhada a partir de alguns apontamentos simbólicos, deixados certamente de forma propositada pelo autor ao longo da obra, e que foram sendo lavrados ao longo dos últimos anos pelos mais variados comentadores. Mas parece-me aqui um esforço irrelevante, sendo que uma breve pesquisa levar-vos-á a encontrar muito mais do que aquilo que eu possa reforçar neste momento. Antes, pretendo apenas estimular todos aqueles que se sentem tentados a embarcar nesta viagem pela primeira vez, para que o façam agora com este novo olhar atento e crítico. Tudo o que precisam de saber, numa primeira aproximação, é que se trata de uma verdadeira jornada homérica, por um mundo onde o mal impera e é uma constante capaz de deturpar a condição humana, havendo assim a necessidade do esforço e até mesmo sacrifício de alguns chamados, para que, no fim, o bem possa prevalecer. A partir daqui, desafio-vos a deixarem-se surpreender por aquilo que este universo tem para oferecer.

Esta recente revisitação ao mundo de O Senhor dos Anéis foi ainda capaz de (re)despertar em mim uma reflexão acerca da atualidade do Evangelho nos dias de hoje. Esta obra, entre muitas outras que poderiam ser aqui nomeadas, prova apenas como as Verdades da Fé continuam a ser bastante atuais, ao ponto de promover em muitos uma certa atitude de identificação pessoal perante a realidade com que são confrontados. E até aqui certamente estamos de acordo, parecendo que estou apenas a constatar uma verdade que nos é redundante.

Contudo, não deixa de ser curioso como recentemente vamos assistindo a uma constante introspeção por parte da Igreja Ocidental face às dificuldades missionárias com que se depara atualmente. Sabemos com toda a certeza que não será um problema da “mensagem em Si”. Será então uma questão de linguagem? Caberá apenas aos especialistas dar resposta a esta mesma pergunta. Chego apenas à conclusão de que talvez um bom contador de histórias seja capaz de fazer chegar o Evangelho a muitos que ainda o desconhecem de forma mais profunda e personalizada. E possivelmente este será um bom ponto de partida para uma longa jornada que os conduzirá à incarnação do mesmo.

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