Deserto: lugar de encontro.
A minha experiência pessoal no retiro de silêncio que fiz, de 29 de fevereiro a 2 de março, foi francamente positiva. Fui convidado a participar por uma amiga, que também lá fez retiro, e foi o modo de responder ao desafio, de tantos anos, que a Ana Maria me vinha fazendo. Decidi fazer retiro, porque precisava urgentemente de me retirar do mundo, do curso, do estágio, das preocupações, das ânsias e ansiedades, das dependências, dos vícios, dos ritmos aceleradíssimos do quotidiano, etc. Fui para o retiro com algumas expectativas, algumas das quais se cumpriram, outras não, mas isto não condicionou a minha experiência, porque pude fazer o essencial de um retiro: ser conduzido ao deserto pelo Espírito Santo, estar com o Pai e orar.
Destaco dois aspetos muito interessantes do retiro.
Primeiro: ter sido uma mulher leiga casada a orientar o retiro permitiu-me perceber mais profundamente que todos os católicos são, pelo Batismo, ungidos sacerdotes, profetas e reis. Não quero com isto dizer, de todo, que dispenso a necessidade que temos de sacerdotes, ministros ordenados, até porque nem isso nos faltou, pois tivemos atendimento espiritual no sábado, tendo estado connosco dois sacerdotes para atender às nossas necessidades espirituais. Contudo, pude perceber que qualquer um, deixando-se guiar pelo Espírito Santo, pode ser profeta e guia para os outros, e que é, aliás, nosso dever fazê-lo, em virtude da nossa condição de batizados.
Segundo: ter-se tratado de um retiro de silêncio, em que era "proibido" usar o telemóvel, desconcertou-me, num primeiro momento, porque sou uma pessoa altamente comunicativa, e desconfortou-me, porque o meu conforto está em estar constantemente ligado às novidades, às notificações, aos acontecimentos, às pessoas, às relações virtuais etc., que me vem do telemóvel. Todavia, já no decorrer do retiro, senti-me em processo de "desintoxicação" da dependência que tenho do telemóvel, da comunicação imediata e do entretenimento rápido, e já me vejo ter outra postura em relação ao telemóvel ultimamente. Aliás, até já recomendei a outros desafiarem-se a ficarem um dia inteiro sem usar o telemóvel para coisas desnecessárias. Um dia e meio de desapego bastou para começar a operar-se esta mudança.