A beleza de caminhar juntos.
O actual contexto sociocultural e eclesial coloca-nos diante de um conjunto de desafios, que reclamam uma resposta articulada e assertiva, capaz de ir ao encontro das inquietações e esperanças que habitam o coração dos homens e mulheres de hoje. O aqui e agora do tempo e da história são o lugar concreto onde Deus escreve a sua história de salvação e requer um olhar verdadeiramente kairológico, isto é, um olhar marcado pela esperança e pela confiança, que encontra, na realidade concreta, a presença de Deus que nos impele para a missão. Não nos serve um pessimismo paralisante, nem um optimismo desencarnado que nos impede de ver a realidade como lugar onde o Espírito actua, para lá dos nossos esquemas e calculismos.
Na impossibilidade de medir as surpresas do Espírito, somos chamados a olhar o tempo presente como uma verdadeira oportunidade, para fazer presente a Boa Nova do Evangelho, em cada lugar e em cada cultura. O olhar daqueles que estão treinados pela luz da manhã de Páscoa permite vislumbrar uma nova etapa evangelizadora, que exige um caminho conjunto, onde cada baptizado, como parte integrante do Povo de Deus, na circularidade e complementaridade dos diversos dons e carismas, rasga horizontes novos de missão. Diante desta urgência, a sinodalidade emerge como estilo eclesial imprescindível para uma verdadeira conversão pastoral, como «o caminho que Deus espera da Igreja para o terceiro milénio» (Papa Francisco), porque caminhar, num dinamismo de escuta recíproca, traduz a sua identidade e deve moldar o seu agir.
Ao longo do seu pontificado, o Papa Francisco tem apontado a urgência de abraçar este estilo eclesial como caminho que nos permite seguir melhor o Senhor e realizar a nossa missão como baptizados. Recordo a convicção e entusiasmo com que, no contexto da Assembleia Sinodal da Região Pan-amazónica, o Papa Francisco me dizia que o próximo Sínodo dos Bispos seria sobre a sinodalidade. Contudo, este caminho sinodal, inaugurado pelo Santo Padre, no passado dia 10 de Outubro, em Roma, não é, nem pode ser, apenas uma assembleia sinodal de reflexão e análise sobre a identidade da Igreja e a sua missão no mundo contemporâneo. Como afirmou o Papa Francisco, «fazer um sínodo não é olhar-se no espelho, nem sequer olhar para a diocese ou para a Conferência episcopal, não, não é isso. É caminhar juntos atrás do Senhor e em direcção às pessoas, sob a orientação do Espírito Santo».
A sinodalidade, mais do que um somatório de eventos, estruturas e processos sinodais, traduz um verdadeiro estilo eclesial que caracteriza o modus vivendi et operandi da Igreja, isto é, que fazendo parte da identidade da Igreja enquanto «Povo de Deus que caminha na unidade do Pai, Filho e Espírito Santo» (LG 4), deve moldar todo o seu agir. Contudo, é necessário que estas estruturas e processos eclesiais sejam orientados para a construção deste caminho conjunto e sirvam a comunhão e a participação de todos na única missão da Igreja.
O Sínodo dos Bispos é constituído por três fases fundamentais: a preparação como lugar de escuta da realidade, a assembleia sinodal e a fase de aplicação das orientações sinodais. Desde o início do seu pontificado, o Papa Francisco tem-se esforçado por implementar uma nova dinâmica de escuta, para que o Sínodo seja verdadeiramente um lugar de reflexão conjunta e tenha presente a realidade concreta dos homens e mulheres do nosso tempo.
Deste modo, este caminho sinodal «Por uma Igreja Sinodal: comunhão, participação e missão» apresenta um prolongado tempo de escuta, que mais do que um exercício sociológico de auscultação da realidade, quer ser um tempo de exercício da sinodalidade, como caminho conjunto de análise e projecção pastoral.
Como Jesus a caminho de Emaús, a Igreja quer colocar-se a caminho com todos os homens e mulheres. Disponível para escutar com humildade as suas angústias e esperanças, alegrias e tristezas, quer iluminar a sua vida com a Palavra e conduzir todos ao encontro de Jesus, Pão partido e repartido. Assim, partiremos por um caminho novo, manifestando ao mundo a beleza de caminhar juntos, fazendo presente no mundo o Evangelho que é o próprio Jesus Cristo.