O Céu desce à terra; e da terra se sobe às alturas.
Igreja de Santo Ovídio - Vila Nova de Gaia. Risco dos arquitetos Manuel Carlos de Abreu e Lima Gomes da Silva e entusiasmo de toda uma comunidade e do seu pároco Fernando Nuno Queirós. Obra prima da contemporaneidade em diálogo com o passado, assente no presente mas com o olhar colocado no horizonte de esperança para onde toda a cristandade se orienta! «Esta é a morada de Deus entre os homens» (Ap 21,3).
No bulício da grande cidade inserida entre o casario - palco e cenário da existência de homens e mulheres entre labutas e repousos - ergue-se majestosamente despretensiosa a grande torre e fachada do albergue cósmico onde se funde céu e terra. A horizontalidade emerge àquela verticalidade serena e vigilante da casa mãe da comunidade cristã, qual berço mavioso ante a passo veloz da vida que passa. Na encruzilhada do Metro, dos vários troços de autoestrada e da turbulenta e concorrida avenida da república, encontram-se uns degraus íngremes que orientam o olhar para a grande porta da fachada! Elegante, consegue a proeza de elevar o olhar para o alto: «Eu sou a Porta» (Jo 10,9).
Passado o umbral da divisão entre o profano e o sagrado, esquecemos o biombo porque dentro a Divindade toca a Humanidade. Deus e(i)ncontra-nos: «E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco.» (Jo1, 14).
Em toda a idealização, esquematização e construção a arte e o diálogo com a mesma está presente em toda a parte. O culto e a cultura fundem-se para que pelo belo o Homem experimente o Deus que nos toca a carne. Das muitas expressões artísticas de grande valor destacamos uma: a tapeçaria de Fernando Lanhas. O arquiteto portuense, homem de fé e de profunda espiritualidade (diz quem o conheceu na intimidade) era um apaixonado pelo cosmos que traduz na sua obra pelo meticuloso rigor da escala e da proporção, pela geometria das suas formas e pela exigente leitura de quanto deixou expresso em matéria o que no intelecto sentia como brisa.
É assim com aquela bela obra que figura como que um retábulo da bela Igreja Paroquial de Santo Ovídio. Sob um lanternim que infunde nela a luz natural, o desenho, aparentemente frio e circunspecto, ganha forma. A leitura, essa, é puramente pessoal, resultado da observação dos olhos crentes que se deixam tocar pelas suas formas.
O tom verde, no confronto com a luz do sol, dá-lhe vida. Sugere um movimento constelar como que em geração de vida, que toca o inferior vindo do superior. É, pois, quase providencial apreciar esta obra em contexto de Natal: o mistério da Incarnação parece ali ter uma expressão visual. O triângulo central que dialoga com os eixos concêntricos laterais e com as barras em direção descendente, parece conceber um contacto que se vai alargando e tocando o solo. Pensar na vinda do Deus que se faz homem, contemplando esta tela adquire novo significado. Tal como na vida de cada Homem, Deus atravessa-se pro-vocando, assumindo, redimindo… Se descemos, porém, há-que subir, e olhando a linha horizontal central percebemos uma concentração de linhas que se juntam e dispersam, como um coração que recebe e envia: em jeitos de oblação - em sintonia com a Eucaristia, dádiva e oferta. E alcançando o topo os segmentos unem em cruz: a última linha horizontal é cruciforme. Talvez o topo? O auge? O início da descida? Para descer há que fazer o caminho da cruz, mas para o alto é por Ela que é caminho de salvação e libertação. O fundo escuro, o cosmos, a criação: «Faça-se luz!» (Gn 1,3) e o diálogo com a Trindade presente na multiforme encruzilhada de triângulos que ponteiam toda a tela.
Há certamente muito mais a dizer. Os especialistas traduzirão melhor. Os olhos crentes contemplam e rezam. É esse o objetivo da sua exposição. Nada melhor do que entra naquele espaço, sentar-se, observar… rezar. E deixar que o Bom Deus nos fale pelo Belo. Deixar-se interpelar pelo silêncio exterior e interior.