Redescobrir a Árvore da Vida.
Um economista lê o Livro do Génesis, de Luigino Bruni.
A mim sempre me intrigaram livros que combinam várias áreas do saber. Penso que é aí que começam não só as novas descobertas, mas também a possibilidade de diálogo para compreendermos as diferentes formas que temos de ver o mundo. Diziam-me uma vez que um estudante de medicina que só sabe de medicina nunca será um bom médico, vamos lá ver então se um economista que lê a Bíblia é um melhor economista.
Permitam-me uma primeira nota pessoal que penso que ilustra bem a intenção de Luigino Bruni. São vários os ditados sobre o perigo de emprestar livros. Pois, este livro de que vos vou falar padece dessa sentença. Tenho a certeza de que alguém me emprestou, mas já não tenho a certeza de quem nem quando. Recordo-me do porquê: “É um livro que combina a economia e a teologia, uma vez que foste estudante das duas, é ideal para ti” disse-me o dono. Bem sei que estão a pensar que sou ganancioso, mas é algo que até serve ao primeiro ponto do livro. Ganância é algo que ainda associamos aos sistemas económicos, à alta finança e aos negócios dos mais complexos à mercearia da esquina. E é precisamente por aí que este livro começa: Bruni recorda-nos que a economia é e deve ser sempre humana, com todas as dimensões que isso acarreta.
Uma das comuns definições de economia enuncia-a mais ou menos como o estudo da alocação dos recursos escassos para a satisfação das infinitas necessidades do ser humano. Logo nesta definição vemos que Deus criou este mundo grande e belo para o ser humano, mas para que os últimos vivessem de e com o primeiro deveriam gerir todos os seus dons da melhor forma. E por isto mesmo, para Bruni a economia moderna, com todos os seus desafios, tem tudo a ver com a Bíblia. Luigino Bruni fala-nos que foi ter à Bíblia como tantos outros ao longo dos tempos. Se de Kafka a Miguel Ângelo, tantos autores e artistas se apoiaram na Sagrada Escritura, porque não havia agora um economista e autor de livros também mergulhar neste mar em busca da “verdade e da beleza”.
Ao longo da obra, Bruni usa sempre uma lente fascinado e encantado com toda a narrativa. Há uma surpresa, quase que infantil, na leitura de Bruni que nos transmite uma sensação de frescura a quem o lê. Contudo, Bruni também nunca deixa de interrogar o leitor atual, servindo-se dos vários episódios para provocar reflexões sobre o grande plano macroeconómico mas que, no fundo, é construído por cada uma das nossas escolhas individuais. Assim sendo, permitam-me que em seguida destaque algumas das reflexões que Bruni propõe partindo dos diversos episódios do Livro do Génesis.
Ao guiar-nos pelo princípio do Livro do Génesis, Bruni mostra-nos que todo o louvor da criação é escrito durante um período onde dominam a guerra, a doença e a morte. Toda a explosão da vida descrita nesse trecho tem como pano de fundo uma realidade quotidiana de sofrimento e, no caso, exílio e escravidão. Acrescenta Bruni que todo o Amor de Deus pela Mulher, pelo Homem e por toda a Criação encerra também a nossa realidade atual de atentados e conflitos, de tráfico humano e trocas de influências. Toda esta economia obscura e esta sociedade corrupta não consegue anular aquela bondade e beleza primeiras. É nesta dicotomia que nos é colocada a primeira questão sobre a nossa realidade. Se temos tanto de Caim como de Abel em nós, por que construímos uma economia baseada na avareza e no utilitarismo desenfreado? Por que é que cada um de nós continua a procurara acumular incessantemente? Por que continuamos a contruir instituições que se regem por incentivos de produtividade, sem olhar ao sofrimento e ao bem-estar de tantos? Bruni provoca-nos sobre o que olhamos como belo e bom; à luz desta ideia de criação o que temos de mais belo é tanto a floresta amazónica como o sem-abrigo embriagado na estação do metro, mas talvez nos tenhamos questionado pouco sobre a posição que ambos ocupam na tabela de prioridades da nossa economia local e global.
«Não é bom que o homem esteja só» (Gn 2, 18). Dos primeiros problemas que Deus procurou resolver com rapidez foi a solidão. A humanidade não começou com um pecado, mas com um encontro. O Éden tinha todos os animais, árvores e frutos, e ainda com toda essa riqueza acumulada, reinava a solidão. Desde os poderosos governos preocupados com o crescimento económico até cada um de nós apressado em receber salários e juros, todos nos esquecemos que nada disso substitui olhar alguém nos olhos e fazer alguém sorrir. Mas todas estas provocações não se baseiam em ideais abstratos de acumulação de capital. Bruni concretiza-as em questões concretas de uma sociedade que continua a deixar a mulher de parte como a pecadora e não a companheira que colabora com a mesma importância na construção. Um mundo que não só oferece menos educação e oportunidades às crianças e às adolescentes, mas também uma realidade laboral que paga consideravelmente menos a uma mulher pelas mesmas funções executadas por um homem. De igual modo, questiona-nos sobre uma economia que abandona, despreza e mata os idosos; tal como nos lembra o Papa Francisco, na sua recente encíclica, da «dolorosa solidão» dos idosos (Fratelli Tutti, nº19). Uma economia que não olha os mais velhos desde as poucas leis que os protegem ao pouco tempo e cuidado que cada um dedica aos seus.
Mais adiante, Bruni guia-nos pela transação de compra da sepultura de Sara com o olhar de quem tenta compreender como o mercado e a cultura de troca de bens funcionava na época. Apesar da sua leitura embevecida, não deixa de transportar algumas questões para o nosso quotidiano. No caso, Bruni interroga-se sobre a gratuidade honesta e sincera e acusa a atual “cultura de favores” que muitas vez não são mais que subornos ou «benefícios extorquidos pela violência» (Is 33, 15). Na insistência de Abraão em pagar o preço justo, Bruni reflete no verdadeiro valor das coisas e como este é ou não expresso pelos preços que lhes atribuímos. Pergunta-se sobre se realmente incluímos o valor que a exploração de recursos poderá causar nas gerações futuras, tal como nos lembra várias vezes o Papa Francisco na encíclica Laudato Si: “A noção de bem comum engloba também as gerações futuras” (Laudato Si, nº159).
Assim, Bruni convida à reflexão de todos enquanto cristãos e agentes económicos, todos enquanto membros ativos da Igreja de Cristo e de um mundo em construção. Se a economia beneficia destes olhares bíblicos, também a Igreja, que procura escutar a todos, beneficia do diálogo com tantas outras formas de ver o mundo. Também nós beneficiamos de livros que nos provoquem para que juntos construamos uma economia que não esquece nem os mais frágeis nem a beleza e o bem da criação.