Oração de fim de ano.
O ano está a terminar e nós devemos agradecer-Te, ó Senhor.
Sublinho a palavra ‘devemos’ porque, quando a escrevia, estive quase tentado a não a dizer ou, apenas, a referi-la de passagem, sem tomar posição.
Parece-me – parece-nos – que, hoje, para alguns, o agradecimento não é necessário; parece que, para alguns, os dons são sempre poucos, enquanto as recusas são sempre muitas.
Na verdade, ó Senhor, muitas coisas foram objecto do nosso desejo e Tu, ó Senhor, não no-las deste. Porquê, então, agradecer-Te?
Somos assim, ó Senhor!...
Esquecemos que o nosso existir foi obra Tua; que o nosso permanecer na vida – vida para sempre – é, também obra Tua; a vida divina que nós temos é um dom Teu.
Esquecemo-nos que Tu, ó Senhor, nos vês, nos sustentas, nos acompanhas, nos enches, nos permeias, sendo Tu mais íntimo a nós do que cada um a si mesmo.
Esquecemo-nos que Tu és nosso Pai; esquecemos, sobretudo, que és amor e que só sabes amar; que os Teus actos são sempre actos de amor: misterioso, mas real, e infinito.
Esquecemos, ó Senhor, que cada um de nós é uma planta no campo que é o mundo, e que Tu a fazes nascer, a cultivas de todos os modos e cuidas dela, podando-a: cortando alguma coisa; muitas vezes, cortando muito, se o crescimento e a melhor frutificação o requererem (cf. Jo. 15, 2). Mas, nós, ó Senhor, confundimos a poda com o corte rancoroso e nocivo.
Muitas vezes, ó Senhor, consideramos prejudicial o que é benéfico; confundimos o nosso bem com os nossos desejos; confundimos o agradável, o delicioso com o útil e, até, com o necessário.
Confundimos o bem aparente com o bem real e não queremos acreditar no mistério que é a nossa vida: a nossa vida é um mistério desde que fomos elevados a ser participantes da vida divina: elevados, incorporados em Ti, feitos um contigo. Assim, a nossa vida é – pelo menos, pode ser – a Tua vida mística: a Tua vida misteriosa.
É inútil tentar compreender tudo: isto é um mistério, até ao dia em que veremos, em plenitude, aquilo que Tu queres que sejamos.
Obrigado, ó Senhor, por todos os momentos do ano que passou.
Obrigado porque cada momento da nossa vida corresponde a um acto do Teu amor infinito.
(Cosí, semplicemente, 1. Dio, pag. 65-67)